Sou a Sónia Carolino, tenho 46 anos, sou casada e tenho 1 filho.

Fui toxicodependente durante cerca de 10 anos, apesar de ter crescido numa família "normal" com pais e um irmão 10 anos mais novo.

Sempre fui atinada. Estudava e fazia desporto, era federada e até alcancei um terceiro lugar Nacional na modalidade de Ginástica Acrobática de Competição. Era uma pessoa bastante divertida.

Aos 17 comecei a fumar e aos 18 anos experimentei fumar charros com colegas da Escola Secundária Marquês de Pombal em Belém e achei o máximo. Nesse tempo era habitual irmos para uma taberna em frente à escola beber cerveja, durante os últimos meses de aulas. Era praxe andarmos todos alcoolizados nos últimos tempos de aulas. As turmas de desporto eram conhecidas por serem mais "atribuladas".

Nesse ano, 1990, comecei a namorar com um rapaz que além de fumar ganzas assiduamente, também consumia outro tipo de drogas esporadicamente. O namoro durou 4 anos, duração suficiente para experimentar heroína e cocaína e ficar completamente agarrada juntamente com ele. Além disso tivemos um acidente de automóvel na passagem de ano de 1991 para 92 em cima do tabuleiro da ponte 25 de Abril, em que adormecemos os dois, batemos de frente contra outro carro e capotámos. Foi milagre não termos morrido ali! O carro foi para a sucata e eu não me lembro de nada. Fiquei com a cara muito afetada entre cortes e fraturas.

Nessa altura ainda estudava à noite e trabalhava de dia. Vivia uma vida dupla, ninguém diria que eu consumia. Até um ponto eu que não dá para mais para esconder a magreza, a cor, a falta de brilho no olhar o semblante triste....

Os meus pais acabaram por descobrir o obvio. Tentei deixar os consumos várias vezes. Entre idas para a terra e ficar extremamente controlada nas saídas e no dinheiro pelos meus pais, enfim…nunca funcionou. Eu continuava a trabalhar e a passar pelos processos, tirando uma ou outra vez em que estava de férias.

A minha mãe começou a ir comigo ao café convívio de Benfica e lá andei durante dois anos a enganar-me como se eu conseguisse sozinha e como se não precisasse de ajuda...

Até que um dia, fui descoberta num dos melhores empregos que tive (era o 2º melhor escritório de advogados do país), os meus braços estavam marcados. A minha rotina era na hora de almoço ir ao casal ventoso injetar-me com o pouco dinheiro que tinha, para tentar não ressacar até ao dia seguinte.

Agora, também eu estava cansada da vida que levava, não era só a família que se desgastava a tentar livrar-me de mim própria. A mudança e o pedido de ajuda eram inevitáveis. Lembrei-me do meu primo que tinha passado por um processo idêntico e que tinha ido para o Desafio Jovem e tinha ficado bem de forma definitiva. Para mim era impensável acreditar que seria possível ocorrer tal mudança na vida dele. Por isso não tive dúvidas, era mesmo para ali que eu queria ir. Se tinha resultado com ele se calhar também resultaria comigo!

Entrei em Salvaterra em setembro de 1996, e mal entrei, senti-me livre! Apesar de estar limitada ao espaço, havia em mim sede de outra liberdade! Tive oportunidade de ser acolhida com muita aceitação e um estranho amor! As famílias viviam lá dentro com as utentes sem receio de contágios de doenças ou o que fosse, com os filhos pequenos, sempre perto de nós.

Acabei o programa passados 13 meses. Tinha trabalho e estava inserida na igreja de Benfica uma família que sempre me acolheu de perto.

Em 1999 com algumas turbulências no caminho, estava a viver sozinha, tinha trabalho e estava afastada da igreja e do café convívio porque tinha retomado algumas das “minhas escolhas”. Sentia-me sozinha e comecei a sair à noite de vez em quando com pessoas que conheci no trabalho, foi aí que conheci o Nelson, aquele que é hoje o meu marido.

Saímos algumas vezes com amigos e no aniversário do irmão dele ficamos a viver juntos até hoje (20 anos passaram).

Pouco tempo depois fiquei grávida do nosso filho, embora não fosse previsto é a nossa maior herança.

Seis meses depois do João nascer tivemos uma recaída nos consumos, sem dúvida sete vezes pior do que qualquer uma das outras, os nossos corpos eram consumidos pela magreza, vendíamos algumas das coisas que tínhamos em casa, eu continuava a trabalhar, até que, falei com Deus apesar de não me achar digna de mais oportunidades:

“Deus, se não me renovarem o contrato vou para o centro” e assim foi, não me renovaram o contrato de trabalho.

Os últimos tempos foram terríveis, vendi o carro no bairro das Marianas e fugia das chumbadas que eram disparadas pelos traficantes.

Tive uma overdose, em que o meu marido teve sangue frio para me salvar.

Em todas as situações esteve sempre implícito o Amor incondicional de um Deus de oportunidades, que me resgatou de todas elas e da morte, mesmo não merecendo…

Entrei no centro de Lourel a 03 de outubro 2001 e o Nelson um dia depois em Salvaterra de Magos.

O Programa foi bastante duro, porque a mudança dói, mas quando temos pessoas incríveis, como as que encontrei naquele lugar a caminhada custa menos.

Estou grata a todos aqueles que deram do seu tempo e de si e que acreditaram que era possível eu tornar-me outra pessoa. Os nomes são muitos, mas a Rute Morais foi alguém a quem não tenho palavras para agradecer!

Verdadeiramente conheci o Deus que transforma o “pecado em Graça”!

Hoje somos uma família unida e feliz. Estamos inseridos na igreja de Benfica e neste momento, apenas eu trabalho. Quando menos esperamos as tribulações vêm, mas não desesperamos, fazemos a nossa parte e confiamos sempre em Deus.

Não me envergonho de falar de Deus e dar testemunho a colegas, amigos ou desconhecidos. Acima de tudo procuro que a minha a minha vida fale mais alto do que as minhas palavras.