O meu nome é António Filipe e para mim é um privilégio poder testemunhar acerca do meu passado, se bem que prefiro realçar o presente, mas vamos por partes.

Durante vários anos fui consumidor de drogas duras, tendo-me tornado um toxicodependente. Um dia, um casal amigo, que tinha andado comigo na velha vida de drogas, falou-me acerca do amor de Deus que tinha mudado as suas vidas e que se eu quisesse também mudaria a minha.

Fiquei muito confuso, mas era notória a sua mudança. A maneira de falar, de estar, a sua postura, tinham mudado radicalmente, isso eu não podia negar.

Depois de vários meses de insistência da parte deles, lá tomei a decisão de ir ao Café Convívio na Rua Marques da Silva.

Achei tudo muito estranho. Só falavam que Deus podia mudar a nossa vida, como já tinha feito com várias outras pessoas. Na realidade era estranho, mas havia neles algo diferente, transmitiam alegria, e o que mais me cativou foi a forma como me davam atenção sem querer nada em troca.

Ao fim de 3 meses, dei entrada no Centro de Recuperação para finalmente deixar as drogas. Ninguém faz ideia do que eu passei com a ressaca. Tive vontade de me ir embora muitas vezes, mas lá me fui aguentando, sempre com a ajuda dos conselheiros e também dos colegas de programa.

Nos 24 dias que estive a ressacar a conversa era sempre a mesma: - “Filipe, entrega a tua vida a Deus e vais ver que tudo vai ser diferente”. Tentava resistir achando que aquilo não era para mim. Fui um osso duro de roer!

Numa manhã, acordei cedo e pedi ao colega mais velho do quarto se podia ir para a Capela para orar comigo. Nesse dia algo começou a acontecer dentro de mim e eu não sabia explicar o que se estava a passar comigo, mas era algo novo. A partir daí começou a haver transformação na minha vida e era notória, não só para mim como para todos à minha volta. Passei a dedicar mais tempo para orar e estudar a Bíblia. Percebi que afinal a minha vida fazia sentido, que estava apaixonado por Jesus e cada dia me sentia mais atraído por Ele. Cada dia era um milagre.

Muitas coisas sobrenaturais foram acontecendo na minha vida. Uma delas foi o desejo de servir a Deus na vida de outras pessoas. Foi num dia especial de jejum e oração, o diretor da Comunidade pregou sobre a passagem de Mateus 9:37 e 38: - “Então disse aos seus discípulos, a seara é grande, mas poucos os ceifeiros, rogai, pois, ao Senhor da seara que mande ceifeiros para a Sua seara”. Tive a plena certeza que a chamada era para mim. Fui o primeiro a levantar-me e a dizer que estava disponível para servir. Todos diziam que eram as emoções, mas eu tinha a certeza e fui ter com o Diretor dizer-lhe as minhas intenções e que podia contar comigo para servir onde fosse preciso, ao que ele me respondeu: - “Se queres servir a Deus este é o dia para começares!”

Terminei o programa e estive a servir a Deus no Desafio Jovem durante 4 anos, como cooperador e conselheiro. Simultaneamente, com a AD de Benfica no Café Convívio no Charquinho. Na igreja deram-me apoio, carinho, nunca me julgaram pelo meu passado tendo depositado toda a confiança em mim, mas, um dia, decidi fazer as coisas à minha maneira, pensando que podia dar uma ajuda a Deus. A minha avó bem me dizia que quem se mete por atalhos mete-se em trabalhos, nunca lhe dei ouvidos, mas ela tinha razão.

Decidi viajar para descobrir outros horizontes, cometendo os piores erros da minha vida. Aos poucos deixei de ir à igreja, deixei de orar e de ter temor a Deus, a fé foi-se bem como a confiança, passei a ser crítico e em vez de olhar para os meus erros só via os dos outros.

Nesse meu gosto pelas viagens fui para a Holanda e conheci uma moça do Perú que estava ali a trabalhar. Quando a vi foi amor à primeira vista, trocamos contactos para futuros encontros e quando soube que também era crente logo pensei que era a mulher que Deus tinha para mim e comecei a investir no futuro a dois. Visitei-a no Perú, tudo corria na perfeição, tínhamos planos para casar. Entretanto aconteceu algo trágico na minha estadia lá. Fui roubado, fiquei sem nada, o que parecia um conto de fadas tornou-se um pesadelo.

Para pagar a conta do Hotel e a viagem decidi fazer de correio para transportar droga, a tragédia aconteceu no Panamá quando fui abordado por um polícia no aeroporto que me perguntou se tinha alguma coisa que me comprometesse. A minha resposta foi afirmativa (o que espantou o polícia), mas, conclusão: Fui detido e estive preso no Panamá quase 5 anos e meio, mas a minha pena era de 12 anos.

Mas o inacreditável aconteceu na prisão, nomearam-me pastor, tomava conta de 700 presos e onde eu pensava que ia ser o inferno era o céu. Tornei-me a pessoa de confiança da diretoria do centro penal. No pavilhão 8, dos estrangeiros, com a ajuda do Senhor edifiquei uma igreja. No dia em que tive de regressar à vida a Portugal foi um dia de profunda tristeza.

Quando voltei, queria regressar à igreja AD Benfica, mas tinha receio do que iriam dizer acerca de mim, eu tinha sido sempre um bom testemunho, mas depois disto…

Para minha surpresa receberam-me com todo o amor, não me criticaram. Tenho uma dívida de gratidão aos pastores, aos irmãos e até às crianças. Não tenho palavras que cheguem como reconhecimento.

Voltei a trabalhar na igreja com todo o empenho e dedicação fazendo como ao Senhor, levando alguns até ao programa do Desafio Jovem para conhecerem também eles este Deus que transforma.

Há pouco tempo fui nomeado diácono por unanimidade do ministério. Tenho uma grande família na igreja e no Desafio Jovem. A Deus toda a Glória!