O meu nome é Leandro Abrantes e nasci em Angola há 43 anos atrás.

Os meus pais eram oriundos da Beira Alta, pelo que desde pequeno achei que era uma coisa normal dar-me de beber refresco de bagaço e água pé às refeições.

O meu pai era um homem muito complicado e cheio de mágoas e feridas que a vida lhe deu e com as quais ele nunca quis lidar. Bebia muito e por vezes era violento para nós.

A minha mãe era uma pessoa fantástica e sempre procurou estar na brecha por mim e pelo meu irmão. Ela trabalhava nos tribunais e por isso era colocada em lugares distantes, fazendo com que por vezes passasse muito tempo fora.

Desde criança que me conheço como sendo muito curioso e atrevido, procurando sempre ir até ao limite em tudo.

Quando a minha mãe foi colocada em Vila Nova de Gaia, eu e o meu irmão fomos com ela. Fomos estudar para um colégio que tinha externato e onde estudavam filhos de figuras importantes angolanas. Vi-me na realidade de ir sozinho para a escola, com 11 anos andar de autocarro em Gaia, muitas vezes tive de levar o meu irmão comigo. Tinha muita liberdade e muito tempo livre e ninguém a quem dar contas.

Já tinha experimentado fumar na Figueira, mas foi em Gaia que, com uns amigalhaços, comecei a faltar às aulas e a fumar.

Depois regressámos à Figueira da Foz, onde calhei na turma dos repetentes. Faltava às aulas e fazia imensas asneiras. Foi então que os meus pais se separaram e o pouco temor que me mantinha ainda dentro da linha desapareceu. Tornei-me um miúdo rebelde.

A curiosidade aliada à vontade de ser alguém, ser aceite no grupo, levou-me a não pensar duas vezes quando me convidaram para fumar uma ganza. A partir daquele momento, posso dizer que tudo o que eu fui e fiz, foi em função de consumir, de andar com más companhias, de fazer asneiras. A heroína apareceu pouco depois e foi aí que descobri uma das minhas maiores obsessões. Vivi para ela durante 10 anos. Comecei a injetar e a vender droga e a roubar para sustentar o vício. Tentei vários tratamentos, mas nada resultou.

A minha mãe frequentava uma igreja evangélica e tudo aquilo me fazia muita confusão.

Um dia fui falar com o pastor da igreja, o João Pedro Robalo, que orou por mim. Foi ele quem falou à minha mãe do Desafio Jovem. O ano de 98 foi especialmente complicado para mim, mas fiz todo o processo para entrar e, apesar de cheio de medo, iniciei o Programa Terapêutico do Desafio Jovem, no dia 26 de fevereiro de 1999, na Comunidade de Castanheira do Ribatejo. Tudo me fazia confusão, mas eu sabia que se eu não permanecesse iria morrer. Foram várias as overdoses que tive nos meses antes de entrar para o programa.

Percebi que estava farto de mim. Aos poucos fui abrindo o coração e um dia fiz como o Senhor Jesus ensinou, entrei no meu quarto, fechei a porta e orei ao Deus do qual me falava tanta gente. Eu disse, “Deus se tu existes mesmo, muda a minha vida”. Foi o momento mais fantástico que já havia experimentado. Senti a presença d’Ele e senti o peso do meu pecado e chorei. Chorei muito. Quando terminei de chorar e caí em mim, senti que já não era o mesmo.

Fiz 14 meses de programa. No Desafio Jovem encontrei e conheci os modelos que me guiam até hoje. Homens e mulheres formidáveis. Guerreiros de Deus que trabalhavam em favor da minha vida. Eles vivem nas comunidades, os melhores amigos dos seus filhos, éramos nós, ex-drogados. Que loucura. Essa loucura mudou a minha vida para sempre. Terminei o programa em Alter do Chão, onde conheci a minha esposa, pois íamos com frequência à igreja a Ponte de Sôr. Hoje, olho para trás e vejo neste processo sempre a mão de Jesus a cuidar da minha vida. Decidi que também eu quero ajudar vidas e por isso faço trabalho de Café Convívio e intervenção Social.

Estou grato a Deus e aos homens e mulheres que Ele colocou na minha vida para me moldar e para fazer de mim quem sou hoje, um homem abençoado e dependente da Graça de Deus para viver.