Chamo-me Cristina Pereira e, tenho 46 anos e às vezes parece impossível pensar que há 20 anos atrás era toxicodependente.

Se, por um lado, o divórcio dos meus pais criou aquela insegurança que motivou a procura de valor nos lugares errados, por outro, deu-me a oportunidade de frequentar uma igreja evangélica, entre os 8 e os 14 anos onde, apesar da história que vivi depois, a mensagem do amor de Deus ficou guardada em mim, como uma pequena semente.

Aos 14 anos de idade, sabemos tudo e questionamos tudo. Nessa fase questionei a fé que me tinham ensinado e afastei-me da igreja. Comecei a consumir álcool e drogas “leves” aos 16 anos e, passo a passo, cheguei à heroína. 

Entrei nesse mundo já de mão dada com o meu marido. A dada altura, os consumos escalaram de tal forma que, perdemos tudo o que tínhamos conquistado – uma casa, os nossos pertences, etc., até ficarmos num estado miserável, em que já nem me reconhecia. Pelo caminho, fui desiludindo toda a gente e quando já não havia nada para vender, comecei a enganar, roubar, a deixar que a vida inerente ao vício se apoderasse de mim, levando a família ao desespero.

Lembro-me que foi então, que a minha mãe teve uma conversa muito séria comigo. Não tanto de mãe para filha, mas de mulher para mulher. No meio da alienação em que me encontrava, a minha mãe conseguiu fazer-me parar, refletir e deu-me a mão, para procurarmos ajuda.

A decisão não foi imediata. Não era fácil quebrar as correntes que tínhamos amarrado ao pescoço, por mais que elas nos sufocassem. Para além disso, tínhamo-nos desabituado de tomar decisões, vivíamos à deriva… Jamais esquecerei as duas horas que passei a chorar ininterruptamente… não era este o sonho que eu tinha para mim.

Finalmente decidimos, e a procura por médicos, clínicas e as tentativas de cura começaram. É nessa altura que vamos também ao Café-Convívio da Igreja que eu havia frequentado em criança – a Assembleia de Deus em Benfica. Era mais uma tentativa e, na altura, pareceu-me a menos viável. Levaram todo o tempo a dizer-nos que Deus nos amava e que a nossa vida tinha um propósito, mas era tudo tão irreal que parecia coisa “de doidos”.

Passaram-se quatro meses e as tentativas não estavam a resultar, pelo que decidimos voltar ao Café-Convívio. Na verdade, lá foi o único lugar onde conhecemos pessoas que tinham sido como nós e estavam completamente mudadas; recuperaram a família, o trabalho, o respeito próprio, o respeito dos outros, levavam uma vida útil, normal… que era tudo o que eu desejava ser...

Entrámos no programa e inicialmente foi muito difícil. Regras, era uma palavra desconhecida, mas como já não havia nada para onde voltar ficámos. À medida que o tempo ia passando, apesar das melhorias físicas, fui-me apercebendo do meu grave estado de devastação interior, à espera que algo me despertasse…

Esse momento chegou passados 11 meses de programa. A pequena semente que estivera guardada brotou, e eu tive um encontro com Deus que me marcou para sempre. Foi o preencher do vazio interior que eu sentia e a redescoberta da fé, para reconhecer em Deus o pai que me ama, aceita, perdoa, dá sentido e valor à minha vida - tudo o que eu antes procurara nas drogas...

O caminho de reconstrução interior foi longo, mas decisivo. Eu já não era a mesma pessoa. O tempo passou e com a ajuda de Deus, da família e de novos amigos, recuperámos a vida, o nosso casamento e tudo o que tínhamos perdido. Além disso, percebi como a nossa história poderia ser útil a tantas pessoas que continuavam a sofrer o pesadelo das drogas.

Hoje, além de ter uma vida dita “normal” – emprego, família, um filho maravilhoso – ajudo outras “Cristinas” perdidas na vida, como eu estive um dia...e tudo começou a partir de uma pequena semente...