Chamo-me Chubok Roman Petrovitch, sou Ucraniano e tenho 32 anos. Hoje em dia, com orgulho, menciono o meu nome e nacionalidade, mas nem sempre foi assim.

Das poucas memórias que tenho da infância há uma que deu rumo à minha vida. Eu tinha por volta dos 6 ou 7 anos e tinha ficado em casa, sozinho, a ver um filme, daqueles filmes que dão à tarde para crianças. Nesse filme, o herói principal era um miúdo que ajudava o seu pai a fazer uma mudança de casa. A imagem da felicidade do rapaz só por ajudar o seu pai, marcou-me de tal maneira, que me fez querer experimentar também esta alegria. E mais, eu teria uma ótima oportunidade, por que quando chegasse o verão nós iríamos também mudar-nos para uma casa maior. O meu pai, como funcionário de uma fábrica militar (e nós eramos quatro), ia receber um apartamento maior.

Mas, por alguma razão, eu vou passar as férias de verão com os meus avós e a minha irmã para casa da tia. Quando chegou a altura de regressarmos a casa, para começar ano letivo, percebi que tinham feito a mudança sem mim e fiquei muito aborrecido, mas principalmente porque encontrei a nossa família sem pai. Eu dividia o quarto com a minha irmã mais velha e lembro-me de lhe perguntar: - “O que aconteceu? Onde está o pai?” Ao que ela me respondeu: - “O pai traiu-nos e a mãe divorciou-se dele e ela já tem outro pai para nós”.

Para mim foi um choque, parecia que o mundo ia acabar, alguma coisa morreu dentro de mim naquela altura.

Na nossa cultura a pessoa só tem três nomes, Roman - é o nome próprio, Chubok – apelido da parte do pai, Petrovitch - nome do pai. Lembro-me às vezes de olhar para os cadernos da escola assinados com meu nome completo e achar que dos três só restava o meu nome próprio. Tornei-me um miúdo fechado, não deixava que ninguém entrasse no meu “mundo” e visse o meu sofrimento pela falta do meu pai, principalmente o meu novo pai. Fiquei revoltado com presença deste homem em casa, fazia tudo ao contrário do que ele me dizia. Por causa disto ele começou a tratar-me mal. Para evitar estes conflitos comecei a passar mais tempo fora de casa. Como resultado disto aos 11 anos já comecei fumar tabaco.

Para sustentar este vício comecei por roubar pequenas quantias de dinheiro em casa, e claro, sempre dos bolsos do meu padrasto. Um dia fui apanhado e pude sentir a raiva dele na minha pele. Resultado disto, comecei fugir de casa, andava pelas ruas da cidade e questionava-me qual seria o sentido da minha vida. Dei comigo à procura de um sítio onde me aceitassem como eu era, onde me sentisse amado.

Numa daquelas noites, fui acolhido por um grupo de pessoas mais velhas lá do bairro. Sentia-me bem no meio deles. Na altura eu tinha 14 anos e fazia-lhes favores: ia buscar tabaco, álcool, canábis, as vezes até me mandavam buscar ópio, e quando eu voltava com a missão comprida sempre recebia uma palmadinha nas costas e acabávamos por consumir juntos.

Assim, aos 15 anos tive de fazer o meu primeiro tratamento do ópio, mas sem sucesso.

Só para esclarecer factos: na Ucrânia, depois da queda da U.R.S.S., o país ficou na miséria mas o regime antigo permaneceu. E quando tu entras no sistema como toxicodependente, tu não és zero, tu és menos um. A mentalidade é, se és drogado então és ladrão e ladrão tem de estar preso, não interessa o teu percurso, vais preso e ponto final. Assim, aos 17 anos tive de fugir da cidade para a aldeia, para casa de um primo afastado. Já nem podia sair de casa.

Com dificuldade em adquirir ópio para consumir, meti-me no álcool. A minha mãe propôs-me, então, mais um tratamento, só que desta vez diferente. Ela propôs irmos para fora do país, onde eu pudesse construir uma nova vida, encontrar novos amigos, trabalho, ganhar responsabilidade… A ideia pereceu-me bem…

Quando fiz 18 anos viemos para Portugal, eu e minha mãe. Ela ficou no Algarve e eu fui para Évora. Disseram-me que lá me arranjariam trabalho e que já tinha uma pessoa à minha espera para me orientar. Quando lá cheguei, deparei-me com uma pessoa com a qual eu consumia na Ucrânia. Foi ai que, a primeira vez na vida, experimentei “spitbull“ heroína com cocaína. Não queria mais nada na vida. Só via aquilo à minha frente. Passava os dias à procura de dinheiro, de várias formas, para sustentar o vício: pedindo, roubando nas lojas, enganando as pessoas, assaltando-as. Assim acabei por ir preso, apanhei quatro anos e meio de pena suspensa da qual cumpri um ano.

Quando saí, comecei fazer as contas à minha vida e percebi claramente que, com a vida que eu levava, no máximo aguentar-me-ia até aos 25anos e na altura já tinha 23. Percebi que a droga me ia levar à morte se não acabasse com isto rápido. A morte naquela altura pareceu-me a única solução. 

Com estes pensamentos acabei por ir parar em psiquiatria por tentativa de suicídio. Quando a minha mãe me veio buscar eu nem queria sair, porque eu sabia que era uma questão de tempo e eu estaria “lá” outra vez.

Não tenho grande memória de como fiz o processo de admissão no Desafio Jovem. Sei que ia ao Café Convívio porque a minha mãe me dava dinheiro para ir.

Entrei no Desafio Jovem, em Maio 2007, para Salvaterra de Magos e depois de um culto de manhã descobri quem Deus é. Conheci o amor Dele, nasci de novo. Cada vez ficava mais claro na minha mente que não há acasos, mas sim um propósito. Descobri que o meu propósito era servi-Lo.

Naquela altura nem percebia muito bem o que isto queria dizer, nem o que iria fazer nem onde. Mas estava e estou preparado para tudo.

Depois de fazer o programa decidi entrar na Operação Josué pois queria dar a outros aquilo que tinha recebido para mim. Lá também conheci aquela que hoje é a minha mulher. Ser casado era um sonho que nunca pensei que se realizasse.

Por altura do meu casamento levei a minha esposa à Ucrânia para conhecer o resto da família e também o meu pai (a minha irmã conseguiu manter relacionamento com ele durante todos estes anos). Até me encontrar com ele, eu esperava dizer-lhe muitas coisas, mas na prática não foi bem assim.

Esta era uma pessoa que eu conhecia pouco, bem pouco.

No meio dum jantar ele vira-se para mim e diz: -“Não sei se me vais perdoar por estar longe todos estes anos. Mas quero que saibas uma coisa, quando eu descobri que tu andavas a consumir drogas, eu fui a uma igreja evangélica pedir a Deus por ti. Aquilo que o pastor que estava a pregar tocou no meu coração e quando ele perguntou se alguém queria aceitar Cristo, eu senti que aquilo era para mim, mas quando fui à frente eu disse ao pastor que não o podia fazer, por causa do meu filho. Disse-lhe que estava a perder o meu filho nas drogas, que já o tinha perdido uma vez e não queria perdê-lo outra vez. Então, eu fiz uma promessa que só aceitava Cristo no dia que Ele te salvasse das drogas. E desde daquele dia eu e pastor temos orado por ti todos dias. Hoje chegou o dia de eu aceitar Cristo, por que Ele salvou o meu filho.

Apesar de eu conhecer pouco o meu pai e não ter grande relacionamento com ele por causa da distância, tenho muito orgulho em ter o nome dele.

Entretanto, saímos da Operação Josué e hoje, eu e a minha mulher, estamos na Casa da Cidade trabalhando num grupo que se dedica a alcançar pessoas dos diversos países de leste, na sua maioria alcoólicos e sem abrigo. Encontramo-los nas ruas, levamos-lhes a esperança de que é possível mudar vida, levamos-lhes Jesus. Vamos com eles ao médico, ao S.E.F. para tratar dos documentos, à Santa Casa, à Unidade de Alcoologia, onde for preciso. Eles fazem também parte da nossa Casa da Cidade - aos domingos estão na igreja, às terças vão ao Café Convívio e às segundas, para aqueles que já estão aptos, ensinamo-los a ler e a escrever português, queremos tirá-los de onde Deus me tirou.

Nesta altura temos cinco destes homens a fazer o programa do Desafio Jovem e esperamos que muitos outros também o façam.

E para ti amigo, queria dizer-te uma coisa: - “Há alturas na vida em que achamos que o mundo inteiro nos virou as costas, outras em que desistes de ti próprio. Não te esqueças, há sempre alguém que está a lutar por ti, até mesmo aqueles que tu menos esperas”.